Infância em Boa Vista – Prof. Aimberê em pé (a direita)

Nasci em Boa Vista, em 1946, as margens do igarapé do Caxangá. Na minha infância sofri de malária 5 vezes e, ainda tive muita asma. O meu nascimento, já que, na época, não existia Maternidade, foi assistido pela D. Nazinha, esposa do Tabelião Vitorino Pereira Pinto, que, posteriormente, tornaram-se meus padrinhos. Foi este homem, pai de Júlio Vital Pereira Pinto e de Deodato Pereira Pinto, que me deu o nome de AIMBERÊ, de origem indígena, mais especialmente dos Tamoios, que habitaram o litoral leste do Brasil. AIMBERÊ foi um cacique dessa tribo que teve muito destaque no Rio de Janeiro. Tornei-me Luiz Aimberê porque na hora do batismo o padre recusou batizar-me com o nome profano de Aimberê. Tinha que ter o nome de um santo e escolheram Luiz, em homenagem ao meu avô paterno Luiz de Freitas França, ele neto de uma francesa, que no século XVII , invertendo os papéis, cruzou com um nativo do litoral nordestino brasileiro quando os franceses invadiram o Brasil, no começo da nossa vida como nação.

O Território possuía uma Divisão de Saúde (hoje é a Secretaria de Saúde) que tratava da burocracia, e a DAMI, gloriosa e salvadora Divisão de Assistência à Maternidade e à Infância que funcionava onde hoje está a Secretaria do Planejamento. Da DAMI eu fui freguês. Meu fichário não continha mais fichas,… era um livro,  tipo livro de atas, tantas foram as vezes que eu, doente, compareci levado pela minha mãe.

Cresci equilibrando-me entre os socorros prestados na DAMI e as águas barrentas do Igarapé do Caxangá. Vi, em 1953, ser inaugurada a primeira ponte de concreto que foi feita em Roraima. Uma pontezinha de 10 m que, ainda hoje, está lá, sobre o Igarapé do Caxangá. Foi uma inauguração monstruosa. Teve até gelo para as bebidas servidas. E, nesta oportunidade, eu vi e peguei em gelo, pela primeira vez.

Na casa em que nasci e onde passei minha primeira infância nunca teve luz elétrica, fogão a gás, geladeira (mesmo a querosene) ou rádio. Lá em casa era lamparina à querosene, fogão de lenha, água do pote e, no lugar de rádio era dormir cedo ou apreciar o luar nas noites de lua cheia, fazer adivinhações e ouvir histórias de fantasmas que nunca apareciam.

A casa simples de adobe e taipa, na periferia, não tinha água encanada e, por isso, as condições de higiene eram precárias. O sanitário, por exemplo, ficava há uns cinqüenta metros da casa, do lado de fora. Era um cubículo de um metro quadrado de paredes e piso de tábuas, coberto de alumínio, sobre um buraco de aproximadamente 2 metros de profundidade. No meio do piso havia uma fenda por onde caíam as fezes e a urina.

A minha saúde bucal foi péssima. Não tenho, na lembrança, a aquisição rotineira de creme para escovar os dentes e não guardo, na memória, o lugar, tão comum, onde as escovas de dente eram guardadas no cotidiano de nossa casa.

Apesar de meus pais sempre terem trabalhado com gado, contava minha mãe que eu não fui criado nem com leite materno e nem com leite de vacas. Sem leite materno por problemas de saúde de minha mãe e sem leite de gado por absoluta rejeição. Tudo leva a crer que eu queria mesmo era o leite da minha mãe. Não tive. E, assim, fui criado com leite Pelargon (da Nestlé) que hoje tem o nome de NAM.

Enquanto moramos próximo ao Igarapé do Caxangá, meu pai sustentava a prole com a venda de leite vaca, ovos de galinha e alguma verdura. Meu pai tinha uma vacaria, mesmo morando num bairro da cidade. As vacas pastavam pelos arredores da cidade ou mesmo nas praças. Eu fui o vaqueiro ou seja o responsável pelo recolhimento das vacas para o curral no final do dia. Minha mãe era quem tirava o leite. O curral era colado na nossa casa. Acordava muito cedo, por volta das 5 horas da manhã, fazia um café e ia comigo para o curral com chuva ou sem chuva. Eu levava uma lamparina e dentro dos coxos utilizados para servir sal grosso para as vacas eu fazia minhas lições e fazia as tarefas. Quando minha mãe, lá pelas 6 e 30 terminava de tirar todo o leite, era hora de engarrafar, colocar as garrafas num saco e eu ia entregar o leite nas casas previamente contratadas pelo meu pai. Quando eu chegava, as pessoas, muitas vezes, ainda estavam dormindo, mas eu não podia esperar. O jeito era gritar:

Ó o leite!!!

As pessoas acordavam, eu entregava um litro de leite numa garrafa e recebia outra garrafa vazia do dia anterior. Eu levava entre 8 a 10 litros por dia. Pesava muito. Depois de entregar o leite, voltava correndo para vestir a farda da escola e começar a estudar até às 11 e 30 horas. Vinha para casa, comia alguma coisa e ia pastorear as vacas para elas não irem para muito longe…

POR AMOR A RORAIMA, VOTE AIMBERÊ – 433

  1. 21 de August de 2010
    Rodrigo Lopes

    Legal, com todo este relacionamento com animais e plantações, faz muito sentido seu partido ser o PV. Apoio seu trabalho, apesar de estar em SP.

    Sucesso a nós.

    Rodrigo Lopes

  2. 21 de August de 2010

    Nossa… que história triste. Esse começo de história mostra, o homem trabalhador, lutador e principalmente, vencedor que vc é.
    Estamos com você. 433 \o/

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