No início da primavera, surgem alguns insetos voadores dotados de enorme e arredondado abdômen – são as içás ou tanajuras, expressão fêmea das formigas saúvas. Num único determinado dia, estas içás alçam vôo para serem fecundadas.
De volta a superfície, as içás perdem definitivamente as suas asas. Sem perder tempo, escolhem, separadamente, um tipo de solo apropriado para nele escavar um buraco com quase um palmo de profundidade e que terminará em uma câmara onde a iça dará início a uma nova população de saúvas. Curiosamente, a içá fecha o túnel que desemboca na referida câmara com porções de solo retiradas do fundo da própria câmara que fica então imersa em um ambiente úmido e completamente escuro.
Concluída a etapa de construção do abrigo, a saúva elimina pela boca uma pequenina porção de um fungo filamentoso (uma pequenina porção de bolor) que irá desenvolver-se nutrido, nesta etapa, pelos dejetos e pela saliva da iça. Este fungo servirá de semente para produzir o alimento necessário para alimentar toda a futura colônia.

Cerca de uma semana depois de concluída a câmara, começa a postura dos ovos que a saúva instala, um a um, sobre a massa esbranquiçada de fungos, que neste momento sevem de “berço”.

É curioso como a saliva da içá impede o desenvolvimento de outros microorganismos que poderiam vir a prejudicar o desenvolvimento da nova colônia. Para usufruir deste fato, a içá limpa regularmente suas próprias patas e antenas com o auxílio das suas mandíbulas cobertas de saliva.

Regularmente, durante a postura de ovos, a iça põe uns ovos muito maiores que os normais. Estes ovos – “ovos de alimentação” – são estéreis e servem de fonte de alimentos para a própria iça e também para os novos integrantes da colônia, na fase larval, enquanto o fungo não está disponível em quantidade suficiente.

Depois de cerca de três semanas, surgem dos ovos larvas que passam a ser alimentadas pelo conteúdo líquido dos “ovos de alimentação” levados pela içá, de boca em boca, para as larvas.
Mais três semanas e as larvas transformam-se em pupas (forma intermediária de desenvolvimento já muito semelhante à forma adulta). As pupas não tem a necessidade de se alimentar. Dez dias depois, a içá ajuda as “novas formigas” a sair das membranas de pupa.

Estas jovens formigas já tem uma formidável tarefa para cumprir : escavar uma saída em forma de túnel até a superfície e depois, alargá-lo suficientemente para formar o primeiro acesso (olheiro) do novo formigueiro.

Neste ponto, as primeiras formigas da nova colônia já são capazes de identificar plantas que forneçam folhas que serão trazidas para o interior do formigueiro cortadas em pequenos pedaços. Estas porções de folhas serão introduzidas no interior da massa de fungos. Os fungos são decompositores de partes vegetais (dos pedacinhos de folha), ou seja, nutrem-se das folhas para poder se desenvolver. Uma estrutura – “pequeno cone alongado” – que surge na massa de filamentos do fungo “cultivado” desta forma, é o alimento das laboriosas formigas. Estes “cones” aparecem em culturas de fungos com mais de 100 dias de desenvolvimento e passam a substituir definitivamente os “ovos de alimentação” para todos os elementos da colônia.

Neste estágio do desenvolvimento do sauveiro vimos surgir a seguinte estrutura de sauveiro – um verdadeiro edifício onde existem a sala da rainha – sala onde fica imobilizada a içá que deu origem ao sauveiro e agora “rainha do sauveiro” (ela pode viver mais de 14 anos) desempenhando a sua função de reprodutora (o único elemento com esta capacidade), uma malha de corredores de todo comprimento (alguns medindo muitos e muitos metros) e grandes cavidades (chegam a ter mais de metro e meio de altura) denominadas “panelas”. Estas “panelas” servem para abrigar isoladamente a cultura de fungos, o desenvolvimento de larvas e pupas, o depósito de resíduos, o cemitério e até o solo removido de outras “panelas” e galerias. Este imenso prédio conta com centenas e até mais de um milhar de aberturas para a superfície. Estas aberturas servem para a entrada de material (pedaços de folhas), para a retirada de material de escavações ou para a ventilação do sauveiro.

Nas “panelas” que servem de depósitos de resíduos são encontradas larvas de outros insetos como besouros e moscas. Estas larvas alimentam-se dos resíduos lá armazenados.

Em um sauveiro são encontrados diversos diferentes moradores. Temos novas içás (até três mil novas surgidas de um único sauveiro) que passam a surgir depois de cerca de três anos, temos os bitus que são os machos (cerca de 10-13 mil são gerados para uma revoada nupcial) e as saúvas operárias.

As saúvas nascem com o tamanho da forma adulta. Temos saúvas operárias (contam com três pares de espinhos no dorso) pequenas, médias e grandes. As primeiras (2-3 mm), também chamadas de jardineiras, são responsáveis pelo cultivo do fungo, pela criação dos filhotes (larvas e pupas) e pelo manuseio dos ovos. As médias (6 mm) – “cortadeiras” – buscam as folhas, cortam e transportam-nas para as panelas.
As saúvas grandes ou soldados (cerca de 20mm) tem a função e defender as instalações do sauveiro e as congêneres do ataque de outros animais. Curiosamente, as primeiras saúvas soldados são geradas depois de dois anos da fundação de um novo sauveiro.

Um fato curioso – freqüentemente uma minúscula mosca ataca as “cortadeiras” para depositar seus ovos sobre a face ventral da saúva.Estes ovos têm a capacidade de desenvolver larvas que alimentar-se-ão do corpo da cortadeira (parasitas), causando a sua morte. Para controlar esta situação, uma das pequeninas saúvas acompanha a cortadeira e defende-a do ataque de tais moscas. Para o sucesso de sua missão, chega a ficar por sobre a cortadeira e de lá agita suas patas traseiras para afugentar as perigosas moscas.

Uma estrita organização social e a efetividade de vida.

Isoladamente, a capacidade de realização de seres pequeninos como uma abelha, uma formiga e um térmita (cupim) é muito limitada.
O resultado da atividade de milhares destes laboriosos animais trabalhando juntos deve trazer resultados surpreendentemente efetivos. Não necessariamente – não pelo fato de estarem trabalhando juntos arduamente, mas pelo fato de estarem organizados. Um fenômeno fantástico, ainda não entendido pelo homem, fez surgir algumas classes de seres denominados insetos sociais.
Estas classes de insetos (invertebrados que possuem três pares de patas articuladas) vivem em verdadeiros condomínios sociais com regras essenciais a sobrevivência.
Tudo isto nos faz pensar e aprender com a lucidez e lógica da natureza, onde pequeninas saúvas nos dão uma verdadeira aula de organização, integração, harmonia e equilíbrio.

Escrito por Eduardo Kato, biólogo e professor de gestão ambiental do INPG- Instituto Nacional de Pós Graduação

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