Ontem postei aqui um texto que falava da proibição, pelo governo ditatorial, do TWITTER e do FACEBOOK no Egito. O texto faz alguma correlação entre a Tunísia, aonde o governo, igualmente ditatorial, já caiu e a ditadura de 32 anos, do Egito.

Um amigo, também twitteiro, com a experiência de quem tem amigos intelectuais africanos e morou por lá fez o seguinte comentário recolocando as tudo conceitualmente no lugar certo.

Vejamos:

“Aimberê,
Morei por largo tempo na África, e muito embora tal circunstância não tenha em nada diminuído minha ignorância acerca da realidade das nações situadas ao Norte do Continente, região islamizada, Magreb e Egito, possibilitou-me constituir relações pessoais com bom número de intelectuais africanos, alguns deles bastante argutos.

Por esforçar-me, tenho conseguido manter parte destes vínculos e assim obter acesso a caracterizações que reputo mais qualificadas (principalmente em relação ao que alardeia nosso “jornalismo” Ocidental que suponho entender tanto de África quanto da Lua) acerca de eventos ou fenômenos que naquele Continente dão-se. Pois bem, aquilo que têm-me dito tais fontes afirma que há uma dessemelhança irreconciliável entre a sublevação tunisiana e o atual enfrentamento egípcio. Muito embora, primariamente, possamos considerar ambos os movimentos como contrapostos a domínios igualmente ditatoriais dos Estados, isso não basta, o “contra quem”, para que deles tenhamos uma visão minimamente apurada.

O que parece ocorrer é que na Tunísia deu-se uma insurreição integrada subordinadamente por organizações religiosas mas dotada de pluralidade política de interesses manifestos, assim organizações sindicais, estudantis, de ofícios liberais citatinos, fizeram carga e foram a musculatura e orientação do movimento; estamos nisso no típico espaço público, secular, político, o que possibilita que uma qualquer perspectiva de avanço emancipatório resulte do fenômeno social. Já a situação egípcia parece ser bem outra, lá o enfrentamento está a ocorrer sob plena hegemonia de setores organizados do mais obscurantista fundamentalismo religioso, a ação é infra-política, mobilizada por estímulos e pulsões de arcaísmo abjeto, um seu improvável e indesejável triunfo seria ainda mais violento (geraria ainda mais sofrimento desnecessário) para o povo do que mesmo o atual facão ditatorial, aponta para uma regressão da cidadania limitada a um arrebanhamento compulsório e intolerante; tudo dá-se no “espaço privado” do arbítrio e mandonismo, na afirmação de ordenamentos extramundanos, é tudo apolítico e desumano.

Dizem-me que as especulações sobre as supostas pretensões do tal ex-chefe local do “Serviço de Informações” não passa muito de construto exógeno, estadunidense, sem amparo algum na sociedade.

 

Todas as ferramentas, inclusive as ditas comunicacionais, não têm o escopo de determinar a finalidade para a qual são utilizáveis. É uma exigência para aqueles que militamos por Justiça social e por Emancipação humana que avaliemos a realidade segundo sua concretude, por aquilo que ela é, por sua mesmidade, e não por verificarmos que agentes mais ou menos vistos usam ou não determinados meios, ainda que moderninhos.
Respeitosamente
Rui Donato”

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