Epopéia logística na Amazônia

Por Guy Corrêa Revista  EXAME

Distribuir produtos na Região Norte representa um pesadelo logístico para qualquer empresa. Dos 6 200 quilômetros de rodovias, pouco menos de 20% são pavimentadas — ainda assim, as que contam com asfalto estão em péssimo estado de conservação. Se não bastasse, o acesso a algumas cidades tem de ser feito por via fluvial, o que obriga as companhias que atendem aquela parte do país a operar com um sistema integrado de caminhões e barcos para realizar as entregas. Trabalhar bem nessas condições e ainda obter boas taxas de rentabilidade conduziu a Cervejaria Miranda Corrêa, em Manaus, à condição de destaque do setor de atacado e comércio exterior. A companhia, que pertence à cervejaria Ambev, obteve no ano passado não apenas a melhor rentabilidade do setor — 76,7%. Entre as 500 maiores empresas do agronegócio listadas neste anuário, foi a que apresentou a melhor taxa de crescimento em 2006 — 146,5%. “A Ambev tem uma filosofia única, valorizando o trabalho em equipe. Por isso, conseguimos os melhores resultados”, diz Milton Seligman, diretor de relações corporativas da empresa. “O desempenho atual da Miranda Corrêa é fruto dessa cultura de eficiência.”

A companhia iniciou suas atividades em 1910. Na década de 70, a Miranda Corrêa passou para o controle da Brahma, uma das empresas que deram origem à Ambev. Na prática, hoje a Miranda Corrêa funciona como um dos 41 centros de distribuição (CD) mantidos pela Ambev que cobrem as grandes cidades e atendem os súper e os hipermercados. Devido à baixa densidade populacional, a Região Norte é atendida por apenas dois CD — o de Manaus e outro em Belém. Com isso, essas unidades de distribuição estão entre aquelas do país que cobrem as maiores áreas. No caso da Miranda Corrêa, o total é de 1,1 milhão de quilômetros quadrados somente no estado do Amazonas.

A rotina da Miranda Corrêa ferve à noite, quando não há mais ninguém nos escritórios e começa o carregamento de 75 caminhões do tipo baú para o início do trabalho de entrega das mercadorias. É um serviço pesado, pois são distribuídos diariamente uma média de 11 milhões de litros de cerveja. Cerca de 5% das entregas são realizadas por via fluvial. Nesses casos, os veículos da Miranda Corrêa se dirigem a portos da região, como os de Compensa e Rodway. Lá, os produtos são descarregados para as embarcações que viajam para o interior do estado.

Apesar das complicações logísticas, uma empresa como a Ambev não pode deixar de lado a região por questões estratégicas. Segundo dados do instituto ACNielsen, o mercado consumidor das regiões Norte e Nordeste foi o que mais cresceu no Brasil em 2006, com uma taxa de 12,2%. A título de comparação, a Grande São Paulo registrou no período uma evolução de apenas 2,9% e o interior do estado, 3,8%. Um dos motivos que turbinaram a economia das regiões Norte e Nordeste foi o incremento da cobertura do Programa Bolsa Família. Atualmente, ele atinge 15 milhões de famílias naquelas regiões, propiciando um grande impacto em termos de aumento do poder aquisitivo. “A Cervejaria Miranda Corrêa soube aproveitar esse momento favorável”, afirma o economista Nelson Barrizzelli, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo.

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