A prática não é nova, mas da forma como vem sendo realizada, requer mais atenção dos ambientalistas, pesquisadores e autoridades ambientais a respeito do abate do boto tucuxi (Inia goffrensis), em várias regiões do Amazonas, por comunidades ribeirinhas, para a utilização de sua carne na pesca de uma espécie conhecida popularmente na Amazônia como piracatinga (Calophysus macropterus), ou birosca, mota e simi, em áreas da Colômbia e Peru, onde o peixe é comercializado.

Os animais são mortos tanto com arpão bem como por meio de facadas – num processo chamado pelos ribeirinhos de “sangrar o animal”.

Informalidade
No local em que as imagens foram gravadas, não há fiscalização dos órgãos competentes em orientar o ribeirinho para a captura da piracatinga de uma outra maneira, bem como  o abate indiscriminado dos botos, o que é proibido por lei.

A utilização da carne do boto para a captura de pescado ocorre em virtude da mesma ter bastante “pitiú” (cheiro peculiar do peixe na salga),  odor forte que atrai o peixe de hábitos carnívoros.

A estimativa dos ribeirinhos é a de que um boto adulto cujo peso varia de 150 a 200 quilos, possa render na pesca de aproximadamente 600 unidades de piracatinga.

Entretanto, como se trata de um mercado negro, os ribeirinhos não contam com apoio de uma cooperativa, e vendem o pescado para um atravessador, que se encarrega de comercializá-lo na área de fronteira.

Praxe
A utilização da carne de boto para a captura de algumas espécies de peixes é um fato bastante comum em várias regiões da Amazônia. Em algumas áreas, além do boto, os ribeirinhos também utilizam a carne do jacaré-açu (Melanosuchus niger).

Tal prática por várias vezes foi alvo de denúncias aos órgãos competentes, além de se tornar motivo de pesquisa por instituições como Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Projeto Piatam, Instituto Socio Ambiental (ISA), entre outros.

Relatório técnico  elaborado no ano de 2003 pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá sobre a pesca da piracatinga dava conta de que no ano 2000 houve uma grande utilização das duas espécies para a captura do peixe, cujo principal mercado era a Colômbia, onde ele é comercializado em forma de filés.

Solução
O mesmo relatório oferece algumas sugestões que poderiam conter o abate indiscriminado de botos e jacarés – o que causa um desequilíbrio ambiental –, bem como alternativas para a captura da piracatinga.

Entre as propostas oferecidas pelo documento estão melhor controle na região de fronteiras – uma vez que o peixe capturado em território  brasileiro é comercializado na Colômbia na informalidade –; avaliação e identificação dos ribeirinhos que atuam na pesca da piracatinga; avaliação dos impactos da caça ilegal  de botos e jacarés, entre outras.

Em 2008, pesquisadores do Inpa, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), Projeto Piatam e da fundação colombiana Omacha, também se reuniram para discutir o impacto da caça do boto, para a pesca da piracatinga.

Na ocasião, a pesquisadora Sandra Beltrán, do Projeto Piatam, chamou a atenção para o fato de que a ação econômica, relacionada a captura do pescado, gera riscos para a espécie (botos), e em alguns trechos, como  por exemplo, no médio e alto Purus, a situação pedia mais atenção por conta do abate indiscriminado dos animais.

Síntia Maciel para A CRÏTICA de Manaus

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