Dádiva dos Trópicos

Os índios lhe davam fins alimentares e medicinais que só séculos mais tarde a “ciência” comprovaria. É gostoso. Refresca. Rejuvenesce. Muito digestivo, graças à papaína, que digere em instantes 200 vezes seu peso em proteínas. E nutre sem engordar.

Ibéricos não o conheciam até pisarem nos alegres trópicos. Viram que os índios não apenas comiam os frutos do arbusto ereto e sem galhos, encimado por grandes folhas ligadas por longos pecíolos ao caule, que, sulcado, deixa escorrer um suco leitoso, um látex; também usavam a folha como solvente da sujeira de tecidos; para fins medicinais; e na culinária – de que dá testemunho Juan Ponce de León.

O espanhol que se celebrizou por procurar a quimérica fonte da juventude e conquistou terras cortadas pelo Trópico de Câncer, ao atingir a futura Flórida em 1521, escreveu ao rei de Espanha: “Os índios preparam a carne para cozinhar envolvendo-a, muitas horas antes de levá-la ao fogo, com folhas de uma árvore que produz um delicioso melão, o qual se come cru. E esse processo torna a carne tão tenra que suas fibras se separam facilmente com os dedos”.

Os nativos da América davam ao mamão finalidades que nossa medicina, séculos depois, confirmaria, ao descobrir a importância de suas enzimas. Elas facilitam a digestão sem corroer as paredes do estômago, atacam tecidos mortos e preservam os vivos.

A planta herbácea, com altura que varia de dois a 10 metros, frutifica por volta dos nove meses de idade. Pode viver 20 anos, mas para fins comerciais se recomenda renovar o plantio a cada três ou quatro anos, pois a produção decai. Os frutos, arredondados ou alongados, têm polpa carnosa, macia, saborosa, de cor entre amarelada, laranja ou laranja-avermelhada.

O mamoeiro é o parente mais importante na família das Caricáceas, com cerca de 45 espécies, caracterizadas pelo tronco leitoso e as folhas grandes no alto. É nativo de zonas tropicais das Américas e da África. Foram navegadores ibéricos que o levaram, entre 1600 e 1700, para Malásia, Filipinas e outros países do leste asiático. E o mamão seguiu difundindo-se por todas as regiões tropicais e temperadas, inclusive o Brasil.

Temos também um mamão nativo, parente próximo da Carica papaya, com nome científico (Jaracatia spinosa) tirado da forma com que os índios se referem a ele: jaracatiá ou yaracatiá – soberana (yara), sadia (catü), redonda (â), pelo que inferimos do dicionário de tupi-guarani de Silveira Bueno.

Fruta feminina para os índios, é mais um presente que nos regalou a mãe natureza sob o sol dos trópicos.
Chegou papay e virou mamão
Em meados do século 16, quando ele chegou aqui, chamavam-no de papay, como na América Central, mas logo ele mudou de nome. “De Pernambuco veio à Bahia a semente de uma fruta a que chamam mamão”, atesta o cronista Gabriel Soares de Sousa, em 1587. O naturalista holandês Marcgrave confirma o poeta Botelho de Oliveira, anotando que não era muito estimado “por causa da abundância”. E Piso, vindo com Nassau em 1637, diz que os lusitanos chamam a fruta de mamão porque “fica pendente da árvore à semelhança de uma teta”.

Farmácia e salão de beleza em casa
Sua maior riqueza está nas enzimas, como: carpaína, tônico cardiovascular; fibrina, importante na coagulação do sangue; e papaína, a principal, forte digestivo e anti-infl amatório. O médico norte-americano Philip Pollack resolveu tratar com papaína uma mulher com hemorroidas expostas que já havia tentado de tudo. Em três dias, passando mamão “lá”, sumiram a dor e a inflamação. E ela se livrou do bisturi.

Mamão tem muita vitamina A e C, que aumentam a imunidade e são antioxidantes, o que previne envelhecimento precoce. Ideal pela manhã, pois nutre; limpa o aparelho digestivo; depura o sangue. Mamão na alimentação protege de anemia, gripe, reumatismo, gastrite. Testes mostraram mais eficácia de suas enzimas contra úlceras do que remédios como omeprazol e ranitidina.

E aí vão umas dicas: Prisão de ventre? Coma a polpa e engula as sementes. Calo, verruga, ferida? Aplique o leite das folhas. Mancha, espinha, cravo, ruga? Passe a casca interna no rosto, deixe secar, e lave – é beleza de graça.

Escrito por Mylton Severiano e Kátia Reinisch

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