Quem é o Aimberê? – Parte 4: Rumo ao Rio de Janeiro
Ao terminar o ginásio, conversei com meus pais e disse-lhes o meu desejo. Meu pai, com o apoio dos demais membros da família, especialmente minha mãe, ponderou que talvez fosse melhor comprar um jeep para mim e eu colocá-lo na praça. Na época, ter um jeep na cidade era uma tentação que um jovem dificilmente desprezava. Era um must ter um jeep naquela época onde o Volkswagen ainda não tinha chegado. No máximo já se tinha visto apenas o Sinca, o Aero Willis, o Gordine e o Dauphine. Nada mais. E mesmo estes eram contados. Não passavam de um exemplar de cada.
Rejeitei a oferta do meu pai. Não quis o jeep. Eu pensei no futuro. E o futuro, para mim, não era um jeep. Eu tinha ambição: eu queria ter muitos jeeps e estes eu só teria estudando.
- Não, eu não quero o jeep, eu quero ir estudar no Rio de Janeiro.
Foi uma decisão considerada louca e impossível de ser concretizada. Todos foram contra. Só meu pai concordou comigo, depois dos meus argumentos. Era um jovem de 17 anos convencendo um senhor de 68 anos. Minha mãe, já meio desesperada com a minha decisão, propôs que eu fizesse um concurso para o Banco do Brasil. Afinal, ser funcionário do Banco do Brasil representava ótimo salário, estabilidade e status. Também não quis. Ela então ponderou:
- Mas como vamos manter você lá fora se nós não podemos manter você e os outros nem aqui?
- Você não lembra que para comprar suas roupas e sapatos você tinha de, nas férias, fazer carvão lá no São Lourenço?
Todos, com exceção do meu pai, eram contra. Além disso, eu não conhecia outra cidade além de Boa Vista e Caracaraí. Eu não tinha nada, roupas, objetos de uso pessoal. Eu não estava preparado para viajar a lugar algum.
Meu pai foi ao Banco do Brasil, tirou 2 milhões de cruzeiros para serem aplicados na agropecuária. Do que sobrou deu- me 100 mil cruzeiros em notas de mil. Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha mão. Deu-nos, lá no São Lourenço; eram 17 horas. Pus os meus quase nada em um saco de algodão, desses sacos que vêm com açúcar e, nesta mesma tarde, vim a pé para Boa Vista, tratar da minha viagem. No dia seguinte comprei uma maleta, algumas roupas e a passagem aérea Boa Vista/Manaus, que custou 8.500 cruzeiros. Estava feliz. Estava realizando o meu sonho. Fui ao ginásio, peguei a minha transferência. Preparei tudo. Despedi-me de alguns colegas e, no dia 9 de janeiro de 1964, deixei Boa Vista para trás. Foi uma viagem de 2 horas a bordo de um DC-3 da Cruzeiro do Sul. Meu destino era estudar o Científico no Rio de Janeiro.
Em Manaus, vi, em janeiro de 1964, um automóvel volkswagem pela primeira vez na vida. Devo confessar que achei feio e o comparei a uma barata grande, vi ônibus, andei de kombi (o expresso que fazia o circular João Coelho/Joaquim Nabuco e vice-versa). Conheci Manaus.
Depois de uma semana em Manaus, resolvi que o meu estágio estava terminado. Comprei a passagem na VASP no trecho Manaus/Rio, num avião quadrimotor que demorava 6 horas para fazer o percurso.
Chegamos ao Rio às 17 horas, no Aeroporto Santos Dumont, no centro da cidade. Era o dia 17 de janeiro de 1964. Eu estava chegando na cidade dos meus sonhos, graças ao apoio do meu velho pai que ficou em Boa Vista, mas que estava dentro de mim, dando-me grande força. Ao descer no Rio, pensei em tudo: no que eu estava indo fazer ali, nos meus irmãos que ficaram, na minha mãe, na minha cidade que deixara para trás. Em tudo, enfim.
O endereço que eu levava no bolso era do estudante Luiz Hitler Brito de Lucena, que eu não conhecia pessoalmente mas de quem tinha excelentes referências dadas por seu pai, Sr. Epitácio e D. Quinha em Boa Vista.
Ao descer do avião e receber a mala, a primeira dificuldade: enfrentar uma fila para apanhar um táxi. Ainda não tinha entrado numa fila, especialmente para tomar um carro. Entrei no carro preto, velho, quase caindo aos pedaços e dirigido por um português, e este me perguntou:
- Zona Norte ou Zona Sul? E eu sem saber do que o motorista estava perguntando, respondi:
Não sei qual é a Zona que eu vou, só sei que eu quem ir para este endereço aqui. E mostrei para ele. Em Rua Ubaldino do Amaral, 50, próximo à praça da Cruz Vermelha, na Lapa. Lá morava o Hitler, para quem eu levava uma carta de apresentação, um queijo e 2 kg de carne seca, que estavam dentro da minha mala há mais de uma semana.
Chegamos ao endereço, paguei o táxi e constatei que não tinha ninguém em casa. Já comecei a ficar desesperado. E agora o que eu vou fazer? Para onde vou? A mala do lado, aquele ar de beiradeiro, recém chegado. Sentei na calçada e esperei.
Em seguida, lá pelas 19 horas, chegou uma senhora, gorducha, que era dona da pensão e perguntou o que eu queria ali. Ela disse que o Hitler só chegaria lá pelas 10 ou 11 horas da noite porque ele além de bancário durante o dia, estudava a noite em Niterói.
O jeito era esperar. Ela mandou eu entrar e, lá dentro, esperei até a chegada do Hitler. Ao vê-lo apresentei-me, entreguei a carta, o queijo e a carne e disse-lhe do meu objetivo.
Hitler ouviu-me, deu-me força e falou-me:
Mas aqui, nesta pensão não há vagas. Não tem onde você dormir. Eram 3 ou 4 quartos num sobrado, mas estavam todos lotados com 3 camas de solteiro em cada quarto. Não era possível ficar ali. Por aquela noite, no entanto, eu poderia dormir no sofá da sala da pensão, mas teria que levantar-me antes de D. Minta chegar às 5 horas da madrugada.
Pela manhã, o Hitler e os demais estudantes de outros estados que lá moravam saia para seu trabalho. Afinal é assim na cidade grande. E eu ficava só, sem orientação, sem conhecer a cidade, sem saber nada, sem ter onde apoiar-me. Estava na cidade de meus sonhos, mas não sabia por onde começar.
Fiquei dormindo no sofá quase um mês. Eu não encontrava outro lugar para alugar e não sabia onde procurar. E se não tinha onde morar, muito menos onde estudar. Eu não tinha nem endereço de um colégio. Mas eu tinha uma determinação íntima: tenho que vencer.
Eu queria resolver 3 problemas básicos e fundamentais: comer, dormir e estudar. Comer era importante uma vez que o dinheiro que levei, ou seja, o que ainda tinha dos 100 mil estava se acabando em pensões e restaurantes. A saída para mim era obter uma permissão para comer no restaurante dos estudantes que tinha o sugestivo nome de CALABOUÇO. Era imprescindível que eu conseguisse comer no Calabouço. Lá era 2 cruzeiros o bandejão. Mas para comer lá, um dos requisitos era estar matriculado. E eu não estava. Não estava porque em todos os colégios públicos que eu tinha ido não havia vaga. E colégio particular seria pior: tinha vagas, mas eu não tinha dinheiro para pagar. Custavam em torno de 30 a 120 mil por mês. Indo dos mais baratos e mais fracos para os mais caros e melhores.
Não encontrava onde cursar o meu sonhado científico.
Por outro lado tinha que resolver o problema da moradia. Continuar lá naquela pensão era impossível e a D. Minta, reclamava diariamente, da minha dormida no sofá da sala. Estava ficando sem saída.
Certo dia, no entanto, o Hitler, que era amigo do João Havelange, presidente da CBD, foi a convite deste, passar uma semana em Recife, onde havia um torneio esportivo. Durante esta semana passei a ocupar a sua cama. E antes dele chegar um companheiro de quarto de nome Benedito, matogrossense de Poroxéu, arranjou uma coroa e mudou-se para Bangú. Com sua mudança ocupei definitivamente a sua vaga. Resolvido um problema. O tempo passava e era necessário resolver os outros o quanto antes.
Por Amor a Roraima – Vote Aimberê 433
Quem é o Aimberê? – Parte 3: Um Adolescente Roraimense Sonhador
O Ginásio da época, dirigido pelo Padre José Zintu, era muito mais que a quase totalidade das Universidades de hoje. Quem se formou naquele Ginásio é “Doutor”, até hoje. Estudava-se Francês, Inglês, Canto Orfeônico, Latim, Trabalhos Manuais, História Geral, Histórias das Américas, História do Brasil, Geografia Geral, Geografia do Brasil, Desenho Artístico, Desenho Geométrico, Técnicas Comerciais, além de Português e de Matemática. O Secretário era o Professor Voltaire Pinto Ribeiro que também ensinava Francês, com maestria. Os Professores recebiam por hora/aula e havia muita dedicação. São dessa época: Madre Leotávia, Profº Voltaire, Profº Jaceguay Reis Cunha, Prof’ Severino Gonçalo Gomes Cavalcante, Dr. Câncio, Dr. Borges, Padre José Zintu, Padre Eugênio, Padre Dante, Professor Rubelmar Maia de Azevedo, os Tenentes que comandavam a 9ª Cia de Fronteiras, Profº Ferreirinha e outros tantos. O governo do Território não se metia com o GEC. Ele era da Prelazia, do Bispo D. José Nepote. O governo, na época, tinha apenas a Escola Normal Regional Monteiro Lobato. Rival do GEC nos esportes, nos desfiles, etc.
O GEC além da parte acadêmica propriamente dita, possuía o seu Grêmio Estudantil Euclides da Cunha, que se reunia às 5ª feiras, e onde todos tinham oportunidade de exercitar seus pendores artísticos e culturais. O Grêmio era dirigido por estudantes eleitos pelos colegas em eleição democrática, disputadíssima. Foi aí o nosso primeiro aprendizado da democracia. Sempre fui dos mais assíduos nos programas dessas reuniões semanais, ora fazendo discurso sobre um fato importante, ora declamando poesias, algumas até em Francês. Foi neste Grêmio que aprendi a falar em público, mesmo nunca tendo perdido o nervosismo e a ansiedade do início do discurso. Foi assim uma escola da vida. São contemporâneos da época do Grêmio: Mozarildo, Alcides, Elair, Pojucan, Diomedes, Nelito, Ana Nery, Edolier, Santoris, Ubirajara Riz, Ubirajara Souto, Alexandre Ferreira Lima Neto, Ovídio, Montenegro Peixoto, Antônio de Pinho Lima, Paulo Coelho, Humberto, Wilson Franco, Francisco Vandi Queiroz, Pedro Correa, Wedner Cavalcante, Valdé, José Liberato, Augusto Botelho, Sileno, etc.
O movimento estudantil era intenso. Havia a URES – União Riobranquense de Estudantes Secundaristas, filiado a UBES, com sede no Rio de Janeiro, no mesmo prédio da UNE, na praia do Flamengo, 132. A sede da URES era uma casa de madeira ao lado da caixa d’água. Lá os estudantes, mais conscientes do que os atuais, discutiam os destinos do país e de Roraima. A URES era nossa casa e a nossa trincheira para lutar por tudo aquilo que se achava justo. Fui Diretor do Jornal O Estudantil, órgão oficial da URES, tendo como secretário Paulo Coelho Pereira. A URES era combate, era luta, era vida. Em 1964 acabaram com a URES e destruíram o seu prédio, tal e qual foi feito com a UNE no Rio de Janeiro.
Em 1963 perdemos a política para a presidência da URES e fundamos, então, a AJR – Associação Juvenil Roraimense, tendo como seus impulsionadores, Ubirajara Souto, Idamir Cavalcante, Marlene Cavalcante e Marielza Freitas. AJR foi atuante, enquanto existiu, mas também ela desapareceu e os seus diretores foram perseguidos em 1964.
Concluí o Ginásio em 1963. Roraima não tinha os cursos de 2º Grau. Na época esses cursos denominavam-se Científico e Clássico. O jeito era sair por aí a fora atrás de mais estudo.
Terminei o Ginásio Euclides da Cunha, o equivalente hoje ao final do ensino fundamental, em 1963. Nossas turma de formandos daquele ano era composta de: Ana Nery Magalhães, Paulo Coelho Pereira, Mitsi Guimarães Siqueira, Sebastião Cruz Lima, Sâmara Maria Salomão, Geber Monteiro Coelho, Tarcy de Oliveira Pereira Natrodt, Mércia Maria dos Santos Rangel, Jeziel Torres de Amorim, Maria Nilce Macedo Brandão, Diomedes Oliveira, Sebastião de Oliveira Costa, Maria Antônia de Melo Cabral, Walter Jonas Ferreira da Silva, João Manoel de Almeida Coimbra, Mozarilma de Melo Cavalcante, Suely Nazaré Lima, Maria Estela Tavares, Tereza da Luz Morais, Margareth Moura Refkalefsky, Maria Tereza Barbosa Monteiro, Humberto de Oliveira farias, Augusto Afonso Botelho Neto, Lígia de Souza Pontes, Leonilza Rodrigues Barreto, Laura de Melo Cabral, Maria Rosi Gomes dos Anjos, Maria Leide Pinheiro, Elvécio Ferreira, Nélio Manuel Queiroz de Oliveira, Maria Aurileide Pinheiro, Carmem Maria das Graças Duarte, Maria de Lourdes de Sousa Coelho, Ovídio Vieira da Costa, Valderleide co Carmo Baraúna, Maria Célia Filgueiras de Melo, Syleno de Castro Ramos, Sebastião Duarte Arrais, Marcus Vinicius de Farias Guerra, Regina Célia Moraes de Oliveira, Luiz Aimberê Soares de Freitas, Maria da Conceição Melo Menezes, Terezinha de Jesus Castro Medeiros e Maria do Perpétuo Socorro Brasil.
Para dar continuidade à minha senda, novamente fui o orador da turma. Na ocasião fiz seguinte discurso: “ Neste dia quatorze de dezembro, data em que o Ginásio Euclides da Cunha lança para a sociedade mais uma equipe de formandos, eu, imposto pela vontade dos demais colegas, aqui venho para cumprir um dever, expressando o nosso pensamento de gratidão àqueles que muito fizeram pela nossa causa. Ditas estas palavras à guisa de intróito, desejo dizer que, escolhido para uma missão tão difícil quão honrosa, como esta de traduzir o que lhes vai na alma, sinto-me sobremodo emocionado, fugindo-me o vocabulário nesse momento, porém, em certas ocasiões a noção de responsabilidade ergue-se além da própria inteligência. Principalmente quando nos é dado firmarmos em público o que há de mais sublime na consciência humana que é o espírito de gratidão. Hoje os campos gerais do imenso Território de Roraima amanheceram com um verde mais bonito, mais orvalhado e mais esperançoso que nunca. E eu vos digo que se os campos gerais, eternos vigilantes, amanheceram mais esperançosos que nuca é porque eles vêem nessa juventude a sua esperança. Se eles amanheceram mais orvalhados que nunca é porque o orvalho de hoje foi de um colorido todo especial anunciando os quarenta e quatro formandos do Ginásio Euclides da Cunha. Cada formando é mais uma estrela no firmamento do bem estar do Território e o seu povo. Cada formando é mais um sol que nasce no horizonte para fertilizar, cada vez mais o porvir roraimense. Uma montanha tem o seu capitel, o seu pico mais alto, aquele que melhor se distingue no meio dos demais. Aqui o Território de Roraima é uma montanha e o seu pico mais alto é esta juventude laboriosa que muito representa no futuro de um povo. As nossas palavras são de eterno reconhecimento ao sacrifício e a persistência dos nossos querido pais que não recuaram um só passo em face dos obstáculos que surgiram durante a nossa jornada nos cursos primário e secundário para que víssimos concretizados os nossos ideais. Lutaremos sempre para honráramos as tradições dos nossos estabelecimentos de ensino, nos quais recebemos as luzes do saber e clarearam-nos as trevas da ignorância. O diploma que hoje recebemos e que traduz o esforço e a dedicação e muitos, nos abria as portas para outros campos e esses mesmos campos nos servirão de base sólida para futuros empreendimentos. E nestes empenharemos os melhores esforços para batalharmos pelo engrandecimento da terra que nos viu nascer. Aos nosso queridos mestres, cujos nomes ficarão gravados eternamente com tinta da cor do sangue do coração o seio dos quarenta e quatro finalistas, os quais acompanharam todos os nossos passos comum verdadeiro carinho maternal, orientando-nos nas horas difíceis comungando as nossas alegrias. A estes, que constituem para todos nós o que há de mais sublime, a nossa eterna gratidão e que continuem sempre pugnando por esta causa tão nobre que é da juventude do extremo setentrião brasileiro. Uma nov jornada iniciaremos com a noção firme e coesa de, no porvir, lutarmos pelo progresso do exuberante Território de Roraima e pelo engrandecimento do Brasil.”
O texto acima tem semelhança com o do primário, mas este foi inteiramente meu. Toda o meu ideário de servir, de trabalhar e de desenvolver Roraima foi construído tanto na escola primária, como no fantástico Ginásio Euclides da Cunha. Quem se formava naquele Ginásio, pode crer, se igualava aos universitários de hoje ou até os ultrapassava.
Ora, se para fazer o ginásio em Boa Vista já era difícil, imagine pensar em estudar fora! Era quase impossível.
O Ginásio, em Boa Vista, para mim foi dificílimo. Meus pais mudaram-se, em 1956, de Boa Vista para o interior. Fizeram o êxodo rural invertido: êxodo urbano. E eu, desde a 3a série primária passei a morar em Boa Vista, na casa de pessoas amigas dos meus pais. Morei em muitas casas, vivi muitos ambientes, experimentei muitos costumes diferentes, tive muitas experiências. Tinha apenas 10 anos. Para estudar em Boa Vista, fiz de tudo: lavei pratos, varri quintal, lavei banheiros, fui moleque de recados, fiz de tudo. Mas tudo eu enfrentei com fé, esperança e confiança: um dia vencerei.
Meus pais sempre foram pobres e, além disso, eu tinha outros 7 irmãos que também mereciam atenção. Por isso eu não tinha o que precisava. Meu sapato tinha o solado de papelão que eu mesmo pregava. Minha farda era única: uma só calça e uma só camisa, e era, também, a única roupa inteira que possuía. Uma vez deram-me um ingresso para ouvir Luiz Gonzaga cantar na sede do Rio Branco e, se eu quis ir, foi com a farda do ginásio, porque não tinha outra roupa.
Nunca tive medo de ser contra. Em 1961, governava o Território Djacir Arruda, paraibano, amigo de João Agripino, Ministro das Minas e Energia de Jânio Quadros. Meu pai era paraibano e conheceu a família de Djacir Arruda, homem sério, honrado, corajoso e trabalhador. Pois bem, os estudantes em quase sua totalidade protestaram contra o governador e contra a sua presença no governo do Território. Picharam as ruas, fizeram passeatas, comícios, etc… Eu fiquei contra os meus colegas e a favor do Governador Djacir Arruda. Se um pecado eu tenho é o de seguir os conselhos de meu pai. Fiquei do lado de Djacir Arruda e na sua despedida no GEC fiz um discurso em sua homenagem que, posteriormente foi publicado no Livro: Cinco meses de Rio Branco referente ao seu período de governo aqui no Território. Eu já tinha 14 anos.
Após o ginásio em Boa Vista os caminhos que se apresentavam eram apenas dois: parar por ai ou tentar prosseguir lá fora. Parar, não era meu desejo; eu queria prosseguir.
Mas, como continuar se, para fazer o ginásio em Boa Vista, tinha sido extremamente difícil? Meus pais morando no interior e eu em Boa Vista, ora morando na casa de pessoas conhecidas, ora morando em pensão, como aquela da Srª. Julieta Rangel que pegou fogo enquanto dormíamos, ora morando no interior e vindo, diariamente, de motor de popa, vender leite e estudar. Como pensar em estudar fora?
Eu, no entanto, tinha os meus sonhos. Sonhos de um jovem de 17 anos:
- Eu queria ir estudar no Rio de Janeiro. Não queria Manaus (eu achava que Manaus era apenas Boa Vista ampliada). Não queria Belém. Não queria outro lugar. Só o Rio de Janeiro. A preferência pelo Rio, tenho a impressão que era decorrente de ser o Rio, cidade de grandes recursos, de embaixadas (sempre tive vontade de ir para o exterior, ou a passeio ou, mesmo, para viver), enfim, o Rio era e é uma cidade atraente.
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Quem é o Aimberê? – Parte 2: A Enciclopédia
Minha mãe matriculou-me na 1ª série da Escolas Reunidas Professor Diomedes Souto Maior, hoje Escola de 1º Grau Profº Diomedes Souto Maior. Não passei pelo PRE, como se chamava o Pré-Primário, hoje denominado de Pré-Escolar, maternal, Jardim da Infância ou Educação Infantil. Fui direto à 1ª série tendo como Diretora a Professora Conceição da Costa e Silva que morava na própria escola, casada como Sr. Raimundo Ferreira da Silva, pais de tantos roraimenses ilustres, meus contemporâneos, mas especialmente de Walter Jonas Ferreira da Silva, com quem briguei muitas vezes, nesta época, para ser o primeiro nome da pagela (não se usava a ordem alfabética). Era ordem de matrícula. Quem chegava primeiro ficava em primeiro na lista de chamada. E ele sempre ganhava porque era o filho da Diretora, morava na Escola e eu nunca podia chegar antes dele. Era impossível. Isso me frustrava. Mas eu descontava na hora de estudar. Aprendemos juntos a ler e escrever as primeiras letras. Assim fomos durante o primário. Desta época ficou na minha lembrança os nomes das Professoras Raimundinha Freitas, Waldemarina Gomes e Nazaré, a Nazarezinha devido ao seu tamanho. Foram anos de estudos aplicados. Não ia para o recreio quem não tivesse feito os trabalhos. Na hora da Matemática, a tabuada era tomada com a palmatória em cima da mesa. Cada erro correspondia a um bolo da professora ou do colega que sabia mais. Certa vez a Professora Raimundinha mandou copiar 100 vezes a palavra governo pois eu tinha escrito sem o assento circunflexo. Escrevi e gravei como se escreve governo. Só que a nova ortografia tirou o circunflexo do governo e, até hoje, ficou o que aprendi: tenho dificuldades em escrever governo sem o acento circunflexo.
Nas Escolas Reunidas Professor Diomesdes Souto Maior, estudei até a 4ª série.
Não tinha 5ª série. Fui estudar a 5ª série no Grupo Escolar Murilo Braga, com a Professora Maria das Neves Resende. O Murilo Braga não estava terminado e, durante alguns meses, e com a mesma professora, estudamos no Grupo Escolar Lobo D’Almada no Centro da cidade. Era o ano de 1958. Ano da Coligação, o maior movimento político partidário que já aconteceu em Roraima. Maria das Neves era contra o governo e do lado da Coligação. Por bondade. Ela, carinhosamente, chamava-me de Enciclopédia.
Este menino parece uma Enciclopédia. Ele sabe tudo. Foi o maior elogio que já recebi de uma pessoa. Mas para provar que não sabia tudo, em 1959, prestei Exame de Admissão para o Ginásio Euclides da Cunha e tirei a nota mínima 5, exatamente com o Professor Júlio Martins, recém chegado de Manaus, com fama de intelectual, como realmente o é, e profundo conhecedor do nosso vernáculo e até de latim. Entrei para o Ginásio em 1959.
Para concluir o curso primário, tal a sua importância na época, houve festa e a formatura, em traje de gala, foi no Teatro Carlos Gomes. Como orador da turma, preparei o meu discurso como apoio do Promotor Público do Território, Dr. Jersey de Brito Nunes.
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