Quem é o Aimberê? – Parte 3: Um Adolescente Roraimense Sonhador

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O Ginásio da época, dirigido pelo Padre José Zintu, era muito mais que a quase totalidade das Universidades de hoje. Quem se formou naquele Ginásio é “Doutor”, até hoje. Estudava-se Francês, Inglês, Canto Orfeônico, Latim, Trabalhos Manuais, História Geral, Histórias das Américas, História do Brasil, Geografia Geral, Geografia do Brasil, Desenho Artístico, Desenho Geométrico, Técnicas Comerciais, além de Português e de Matemática. O Secretário era o Professor Voltaire Pinto Ribeiro que também ensinava Francês, com maestria. Os Professores recebiam por hora/aula e havia muita dedicação. São dessa época: Madre Leotávia, Profº Voltaire, Profº Jaceguay Reis Cunha, Prof’ Severino Gonçalo Gomes Cavalcante, Dr. Câncio, Dr. Borges, Padre José Zintu, Padre Eugênio, Padre Dante, Professor Rubelmar Maia de Azevedo, os Tenentes que coman­davam a 9ª Cia de Fronteiras, Profº Ferreirinha e outros tantos. O governo do Território não se metia com o GEC. Ele era da Prelazia, do Bispo D. José Nepote. O governo, na época, tinha apenas a Escola Normal Regional Monteiro Lobato. Rival do GEC nos esportes, nos desfiles, etc.

O GEC além da parte acadêmica propriamente dita, possuía o seu Grêmio Estudantil Euclides da Cunha, que se reunia às 5ª feiras, e onde todos tinham oportunidade de exercitar seus pendores artísticos e culturais. O Grêmio era dirigido por estudantes eleitos pelos colegas em eleição democrática, disputadíssima. Foi aí o nosso primeiro aprendizado da democracia. Sempre fui dos mais assíduos nos programas dessas reuniões semanais, ora fazendo discurso sobre um fato importante, ora declamando poesias, algumas até em Francês. Foi neste Grêmio que aprendi a falar em público, mesmo nunca tendo perdido o nervosismo e a ansiedade do início do discurso. Foi assim uma escola da vida. São contemporâneos da época do Grêmio: Mozarildo, Alcides, Elair, Pojucan, Diomedes, Nelito, Ana Nery, Edolier, Santoris, Ubirajara Riz, Ubirajara Souto, Alexandre Ferreira Lima Neto, Ovídio, Montenegro Peixoto, Antônio de Pinho Lima, Paulo Coelho, Humberto, Wilson Franco, Francisco Vandi Queiroz, Pedro Correa, Wedner Cavalcante, Valdé, José Liberato, Augusto Botelho, Sileno, etc.

O movimento estudantil era intenso. Havia a URES – União Riobranquense de Estudantes Secundaristas, filiado a UBES, com sede no Rio de Janeiro, no mesmo prédio da UNE, na praia do Flamengo, 132. A sede da URES era uma casa de madeira ao lado da caixa d’água. Lá os estudantes, mais conscientes do que os atuais, discutiam os destinos do país e de Roraima. A URES era nossa casa e a nossa trincheira para lutar por tudo aquilo que se achava justo. Fui Diretor do Jornal O Estudantil, órgão oficial da URES, tendo como secretário Paulo Coelho Pereira. A URES era combate, era luta, era vida. Em 1964 acabaram com a URES e destruíram o seu prédio, tal e qual foi feito com a UNE no Rio de Janeiro.

Em 1963 perdemos a política para a presidência da URES e fundamos, então, a AJR – Associação Juvenil Roraimense, tendo como seus impulsionadores, Ubirajara Souto, Idamir Cavalcante, Marlene Cavalcante e Marielza Freitas. AJR foi atuante, enquanto existiu, mas também ela desapareceu e os seus diretores foram perseguidos em 1964.

Concluí o Ginásio em 1963. Roraima não tinha os cursos de 2º Grau. Na época esses cursos denominavam-se Científico e Clássico. O jeito era sair por aí a fora atrás de mais estudo.

Terminei o Ginásio Euclides da Cunha, o equivalente hoje ao final do ensino fundamental, em 1963. Nossas turma de formandos daquele ano era composta de: Ana Nery Magalhães, Paulo Coelho Pereira, Mitsi Guimarães Siqueira, Sebastião Cruz Lima, Sâmara Maria Salomão, Geber Monteiro Coelho, Tarcy de Oliveira Pereira Natrodt, Mércia Maria dos Santos Rangel, Jeziel Torres de Amorim, Maria Nilce Macedo Brandão, Diomedes Oliveira, Sebastião de Oliveira Costa, Maria Antônia de Melo Cabral, Walter Jonas Ferreira da Silva, João Manoel de Almeida Coimbra, Mozarilma de Melo Cavalcante, Suely Nazaré Lima, Maria Estela Tavares, Tereza da Luz Morais, Margareth Moura Refkalefsky, Maria Tereza Barbosa Monteiro, Humberto de Oliveira farias, Augusto Afonso Botelho Neto, Lígia de Souza Pontes, Leonilza Rodrigues Barreto, Laura de Melo Cabral, Maria Rosi Gomes dos Anjos, Maria Leide Pinheiro, Elvécio Ferreira, Nélio Manuel Queiroz de Oliveira, Maria Aurileide Pinheiro, Carmem Maria das Graças Duarte, Maria de Lourdes de Sousa Coelho, Ovídio Vieira da Costa, Valderleide co Carmo Baraúna, Maria Célia Filgueiras de Melo, Syleno de Castro Ramos, Sebastião Duarte Arrais, Marcus Vinicius de Farias Guerra, Regina Célia Moraes de Oliveira, Luiz Aimberê Soares de Freitas, Maria da Conceição Melo Menezes, Terezinha de Jesus Castro Medeiros e Maria do Perpétuo Socorro Brasil.

Para dar continuidade à minha senda, novamente fui o orador da turma. Na ocasião fiz seguinte discurso: “ Neste dia quatorze de dezembro, data em que o Ginásio Euclides da Cunha lança para a sociedade mais uma equipe de formandos, eu, imposto pela vontade dos demais colegas, aqui venho para cumprir um dever, expressando o nosso pensamento de gratidão àqueles que muito fizeram pela nossa causa. Ditas estas palavras à guisa de intróito, desejo dizer que, escolhido para uma missão tão difícil quão honrosa, como esta de traduzir o que lhes vai na alma, sinto-me sobremodo emocionado, fugindo-me o vocabulário nesse momento, porém, em certas ocasiões a noção de responsabilidade ergue-se além da própria inteligência. Principalmente quando nos é dado firmarmos em público o que há de mais sublime na consciência humana que é o espírito de gratidão. Hoje os campos gerais do imenso Território de Roraima amanheceram com um verde mais bonito, mais orvalhado e mais esperançoso que nunca. E eu vos digo que se os campos gerais, eternos vigilantes, amanheceram mais esperançosos que nuca é porque eles vêem nessa juventude a sua esperança. Se eles amanheceram mais orvalhados que nunca é porque o orvalho de hoje foi de um colorido todo especial anunciando os quarenta e quatro formandos do Ginásio Euclides da Cunha. Cada formando é mais uma estrela no firmamento do bem estar do Território e o seu povo. Cada formando é mais um sol que nasce no horizonte para fertilizar, cada vez mais o porvir roraimense. Uma montanha tem o seu capitel, o seu pico mais alto, aquele que melhor se distingue no meio dos demais. Aqui o Território de Roraima é uma montanha e o seu pico mais alto é esta juventude laboriosa que muito representa no futuro de um povo. As nossas palavras são de eterno reconhecimento ao sacrifício e a persistência dos nossos querido pais que não recuaram um só passo em face dos obstáculos que surgiram durante a nossa jornada nos cursos primário e secundário para que víssimos concretizados os nossos ideais. Lutaremos sempre para honráramos as tradições dos nossos estabelecimentos de ensino, nos quais recebemos as luzes do saber e clarearam-nos as trevas da ignorância. O diploma que hoje recebemos e que traduz o esforço e a dedicação e muitos, nos abria as portas para outros campos e esses mesmos campos nos servirão de base sólida para futuros empreendimentos. E nestes empenharemos os melhores esforços para batalharmos pelo engrandecimento da terra que nos viu nascer. Aos nosso queridos mestres, cujos nomes ficarão gravados eternamente com tinta da cor do sangue do coração o seio dos quarenta e quatro finalistas, os quais acompanharam todos os nossos passos comum verdadeiro carinho maternal, orientando-nos nas horas difíceis comungando as nossas alegrias. A estes, que constituem para todos nós o que há de mais sublime, a nossa eterna gratidão e que continuem sempre pugnando por esta causa tão nobre que é da juventude do extremo setentrião brasileiro. Uma nov jornada iniciaremos com a noção firme e coesa de, no porvir, lutarmos pelo progresso do exuberante Território de Roraima e pelo engrandecimento do Brasil.”

O texto acima tem semelhança com o do primário, mas este foi inteiramente meu. Toda o meu ideário de servir, de trabalhar e de desenvolver Roraima foi construído tanto na escola primária, como no fantástico Ginásio Euclides da Cunha. Quem se formava naquele Ginásio, pode crer, se igualava aos universitários de hoje ou até os ultrapassava.

Ora, se para fazer o ginásio em Boa Vista já era difícil, imagine pensar em estudar fora! Era quase impossível.

O Ginásio, em Boa Vista, para mim foi dificílimo. Meus pais mudaram-se, em 1956, de Boa Vista para o interior. Fizeram o êxodo rural invertido: êxodo urbano. E eu, desde a 3a série primária passei a morar em Boa Vista, na casa de pessoas amigas dos meus pais. Morei em muitas casas, vivi muitos ambientes, experimentei muitos costumes diferentes, tive muitas experiências. Tinha apenas 10 anos. Para estudar em Boa Vista, fiz de tudo: lavei pratos, varri quintal, lavei banheiros, fui moleque de recados, fiz de tudo. Mas tudo eu enfrentei com fé, esperança e confiança: um dia vencerei.

Meus pais sempre foram pobres e, além disso, eu tinha outros 7 irmãos que também mereciam atenção. Por isso eu não tinha o que precisava. Meu sapato tinha o solado de papelão que eu mesmo pregava. Minha farda era única: uma só calça e uma só camisa, e era, também, a única roupa inteira que possuía. Uma vez deram-me um ingresso para ouvir Luiz Gonzaga cantar na sede do Rio Branco e, se eu quis ir, foi com a farda do ginásio, porque não tinha outra roupa.

Nunca tive medo de ser contra. Em 1961, governava o Território Djacir Arruda, paraibano, amigo de João Agripino, Ministro das Minas e Energia de Jânio Quadros. Meu pai era paraibano e conheceu a família de Djacir Arruda, homem sério, honrado, corajoso e trabalhador. Pois bem, os estudantes em quase sua totalidade protestaram contra o governador e contra a sua presença no governo do Território. Picharam as ruas, fizeram passeatas, comícios, etc… Eu fiquei contra os meus colegas e a favor do Governador Djacir Arruda. Se um pecado eu tenho é o de seguir os conselhos de meu pai. Fiquei do lado de Djacir Arruda e na sua despedida no GEC fiz um discurso em sua homenagem que, posteriormente foi publicado no Livro: Cinco meses de Rio Branco referente ao seu período de governo aqui no Território. Eu já tinha 14 anos.

Após o ginásio em Boa Vista os caminhos que se apresentavam eram apenas dois: parar por ai ou tentar prosseguir lá fora. Parar, não era meu desejo; eu queria prosseguir.

Mas, como continuar se, para fazer o ginásio em Boa Vista, tinha sido extremamente difícil? Meus pais morando no interior e eu em Boa Vista, ora morando na casa de pessoas conhecidas, ora morando em pensão, como aquela da Srª. Julieta Rangel que pegou fogo enquanto dormíamos, ora morando no interior e vindo, diariamente, de motor de popa, vender leite e estudar. Como pensar em estudar fora?

Eu, no entanto, tinha os meus sonhos. Sonhos de um jovem de 17 anos:

– Eu queria ir estudar no Rio de Janeiro. Não queria Manaus (eu achava que Manaus era apenas Boa Vista ampliada). Não queria Belém. Não queria outro lugar. Só o Rio de Janeiro. A preferência pelo Rio, tenho a impressão que era decorrente de ser o Rio, cidade de grandes recursos, de embaixadas (sempre tive vontade de ir para o exterior, ou a passeio ou, mesmo, para viver), enfim, o Rio era e é uma cidade atraente.

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